(Abril 2015)
Digníssimos Deputados,
Senhores Presidentes dos Partidos Políticos,
Caros Colegas, Membros do Governo,
Representantes da Juventude Partidária e Conferencistas,
Sinto-me imensamente grata por poder contribuir para a reflexão e
debate de um tema de tão manifesta importância e actualidade: Juventude
Partidária e Empreendedorismo.
O nosso futuro coletivo depende, em grande medida, da forma como
encaramos o nosso meio ambiente social. Podemos encarar a realidade que
nos rodeia como um dado adquirido, assumindo que somos apenas uma
minúscula peça de uma enorme engrenagem. Talvez essa atitude seja comum e
até justificável em países desenvolvidos, nos quais basta apenas
continuar a olear a velha máquina. No entanto, bem conhecemos o estado
de indigência a que inevitavelmente conduz uma visão estática da vida
social, em países subdesenvolvidos, onde, pura e simplesmente, não há
propriamente nada merecedor de ser conservado.
O imobilismo,
promovido por uma classe política pouco interessada numa verdadeira
mudança, pode provocar a total atrofia da capacidade de evolução
positiva da sociedade.
Ora, SE NÃO HOUVESSE UM «BICHINHO» A ROER O HOMEM, nunca teríamos saído
da Idade da Pedra. O mesmo «bichinho» atacou virulentamente Cabral,
levando-o a recusar o reconhecimento e uma carreira de topo que o regime
colonial lhe oferecia. PORQUÊ? Porque seria tornar-se colaborador na
conservação de um regime que considerava radicalmente injusto e
humanamente desadequado. Poderia ter escolhido outro caminho, entrando
para o sistema com a intenção de o mudar por dentro? Talvez. Mas, por
vezes, é necessária uma MUDANÇA RADICAL, na própria maneira como
encaramos as coisas. Isto faz-me lembrar a competência especial
desenvolvida por um peixe do nosso tarrafe: o SALTON. Se não conseguisse
«dar o salto» morreria enterrado na lama!
TEMOS DE CONSEGUIR DAR O SALTO E PARA ISSO É PRECISO POR AS MÃOS NA LAMA.
O lema de campanha eleitoral do PUSD foi Pa Lantanda Nô Terra.
Na
qualidade de Presidente do Partido, incentivo vivamente a população e,
em particular, os jovens a assumir um papel cívico ativo, na condução
dos seus destinos. INVECTIVO OS JOVENS A UMA VERDADEIRA MILITÂNCIA
PARTIDÁRIA, que não se pode resumir a agitarem bandeirinhas em período
eleitoral.
É no terreno, no sentir das populações, no convívio das suas
dificuldades e desafios, que podem aprender positivamente a criar as
vossas próprias convicções. É que EMPREENDEDORISMO NÃO SE RESUME AO
CAMPO PROFISSIONAL. Empreendedorismo deve ser encarado, de uma forma
mais banal, como uma atitude, de envolvimento positivo com a mudança que
sonhamos ver implementada. Trata-se de encarnar a mudança, de deitar as
mãos à obra, mesmo que para isso, seja necessário enterrá-las na lama.
SONHAMOS, COMO CABRAL, QUE AS FLORES DA NOSSA LUTA VENHAM A SER MULHERES
NOVAS E HOMENS NOVOS.
Compatriotas e Caros Jovens,
Permitam-me que recupere um slogan da
campanha eleitoral do meu Partido, que consistia nos 3Cs. CAPACIDADE -
COMPETÊNCIA - CONSISTÊNCIA.
O nosso país já viveu tempo demais centrado nos seus políticos.
Não
basta pretender ter capacidade, como invariavelmente afirmam. É
necessário também que se mostre competência na execução e que os
resultados obtidos apresentem consistência.
Julgo que o paralelo entre empreendedorismo e militância é bastante feliz, aproveitando para felicitar os organizadores.
É
que o empresário, à diferença do político, tem de reunir os 3C: não lhe
basta, por exemplo, ser capaz e competente, se os seus resultados não
tiverem consistência, pois é instantaneamente avaliado pelo mercado: se
não ganhar dinheiro, pode abandonar a vocação. SERIA FÁCIL SE PUDÉSSEMOS
CRIAR EMPREENDEDORES POR DECRETO. Mas se assim fosse, todos o fariam;
de facto, é muito mais complicado. É toda uma aprendizagem, que vai da
vontade de experimentar, à experiência e à confiança adquirida durante
essa prática. É toda uma pedagogia do «impulso», da motivação para essa
atitude pro-activa, que é necessário despoletar na juventude. Fazer-lhes
sentir que podem criar o seu próprio lugar no mundo, se se esforçarem
por isso.
HÁ QUE VALORIZAR A CAPACIDADE PARA ASSUMIR RISCOS, de reconhecer, no
nosso imaginário social, o elevado estatuto daqueles que procuram
VALORIZAR AS SUAS COMPETÊNCIAS, criando nichos de produtividade e de
saber fazer capazes de gerar valor acrescentado, onde antes existiam
apenas oportunidades por explorar.
A VITALIDADE DAS NAÇÕES MEDE-SE PELA QUALIDADE DO SEU EMPREENDEDORISMO E
DA SUA CLASSE EMPRESARIAL. Já na política, precisamos desesperadamente
de genuíno empreendedorismo ao nível da militância partidária, que se
traduza numa melhor circulação da informação, fazendo chegar aos
responsáveis políticos as autênticas aspirações do povo, como preconiza o
espírito da Constituição guineense.
Desafio a Juventude do meu
Partido a criar um NÚCLEO DE EMPREENDEDORISMO, a todos os níveis, de
cuja reflexão e dinâmica o Partido e os próprios militantes possam vir a
beneficiar.
Ainda neste contexto, gostaria de alertar para os riscos de uma
visão do desenvolvimento assente na exploração desenfreada dos recursos
naturais, pela forte dependência económica que cria em relação às
flutuações das cotações das matérias-primas. Preferimos, à ganância de
querer explorar e gerar receitas a qualquer custo, UM MODELO DE
DESENVOLVIMENTO MAIS CONSCIENTE E HARMONIOSO, atento à igualdade de
oportunidades, à coesão social e, por essa via, à sua sustentabilidade
para as gerações futuras.
Compatriotas e Nossa Juventude Partidária
Não poderia terminar
sem uma palavra de apreço para com a nossa Jovem diáspora. A coragem de
partir para um país estrangeiro à procura de uma situação de vida melhor
para nós e para a nossa família é já, em si, um grande ato de
empreendedorismo. Desafiamos aquelas e aqueles que já o fizeram uma vez,
que arrisquem de novo, que se interessem pelo destino da Guiné-Bissau,
beneficiando-nos com toda a experiência que entretanto adquiriram,
devolvendo-a ao serviço da terra.
Perante a enorme tristeza que
sentimos quando vemos cenas como aquelas que se passam frequentemente em
Lampedusa, ocorre-nos pensar: SERÁ ESTA A ÚNICA ESPERANÇA DA NOSSA
JUVENTUDE? Não poderíamos canalizar toda essa energia, colocando o seu
empreendedorismo ao serviço do país, onde tanta falta nos faz?
Concluo apelando a todas e todos os guineenses no sentido de darem
um especial valor social aos empreendedores, de se promover o respeito e
a elevada consideração que lhes é devida. Isso faz parte da grande
mudança que pretendemos para a nossa terra. Implica UM CORTE RADICAL AO
NÍVEL DA MENTALIDADE PREVALECENTE, bastante perniciosa, para evitar que
se insinue nas expectativas dos jovens, levando-os a acreditar que só
terão futuro entrando para a política e para o aparelho estatal,
perpetuando a cultura do proveito pessoal em detrimento da coisa
pública.
É VITAL MOSTRAR AOS JOVENS QUE É POSSÍVEL E ALTAMENTE DESEJÁVEL UM COMPROMISSO.
É preciso abandonar a mentalidade que nos faz desmerecer as coisas e as pessoas da nossa terra.
A
esperança de uma mudança autenticamente positiva reside na cooperação,
na afirmação identitária e numa nova cultura política. E a insatisfação
própria da juventude é o nosso maior trunfo para essa revolução
tranquila!
Muito obrigada a todas e a todos pela vossa atenção.
(Oradora: Carmelita Pires, Presidente do PUSD.)