Opinião: Mesa Redonda: OPORTUNIDADES E RISCOS PARA O DESENVOLVIMENTO


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Nas últimas semanas, para não dizer meses, tornou-se vulgar na Guiné-Bissau, particularmente nos mais variados orgãos da comunicação social ouvir e ver notícias relacionadas ao encontro que o governo da Guiné-Bissau terá com os doadores no próximo dia 25 de março de corrente ano, em Bruxelas, capital da União Europeia. Aliás, nos últimos meses a chamada mesa redonda de Bruxelas tornou-se o slogan do governo do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), encabeçado pelo Domingos Simões Pereira. E não só, o eco da agendada reunião de Bruxelas podia ser ouvido também nas falas de autoridades de outros orgãos da soberania nacional. Tal fato ficou nítido durante a excursão de uma delegação de Assembleia Nacional Popular ao interior do país, representado ao mais alto nível pelo seu presidente, Cipriano Cassama. Nas suas intervenções em resposta às demandas das populações de zonas rurais visitadas, o número 1 do parlamento guineense condicionava a materialização de necessidades básicas de desenvolvimento dessas localidades ao sucesso da reunião de 25 de março. Aliás, convém salientar que a materialização do programa de desenvolvimento da Guiné-Bissau – como espelha o programa estratégico de desenvolvimento do executivo do PAIGC – está condicionada ao sucesso da reunião de Bruxelas.
Conforme o governo da Guiné-Bissau, a mesa redonda com os doadores tem por objetivo apresentar aos parceiros internacionais de desenvolvimento o seu programa estratégico de desenvolvimento dos próximos dez anos (2015-2025), e conseguir financiamento para sua execução. A fase inicial (“Terra Ranka”) estende-se de 2015 a 2020 e a segunda etapa, (“Sol na Iardi”), corresponde ao período que vai de 2021 a 2025. Os pontos de maior destaque são a infraestruturação e agroindustrialização da cadeia produtiva e econômica do país, além do desenvolvimento urbano e rural.
O governo da Guiné-Bissau espera obter junto dos seus parceiros um valor que gira em torno de US$ 2.2 mil milhões para implementar, até 2025, todos os projetos contemplados pelo programa. Em função da capacidade financeira dos atores financeiros multilaterais e bilaterais que estarão à mesa com a delegação do governo guineense (composta por 60 elementos), acreditamos que há possibilidades do governo conseguir atrair recursos, independentemente do fato do mundo, Europa em particular, estar a passar por uma de suas piores crises financeiras. O nosso otimismo baseia-se no fato de que a maior parte dos valores que serão disponibilizados para o governo da Guiné-Bissau será (tende a ser) a título de empréstimo (inclusive com juros). Teoricamente, a mesa redonda consiste em uma relação de ajuda entre doador e beneficiário, mas em termos práticos transforma-se (tende a transformar-se) em uma relação de negócios assentes nos princípios de mercado.
Denota-se que os discursos proferidos pelos governantes guineenses a propósito do encontro de 25 de março, em Bruxelas, induzem o cidadão comum a concluir que se o governo conseguir os US$ 2.2 mil milhões, logo a mesa redonda pode ser considerada um sucesso. Isso é uma grande ilusão. Há elementos imprescindíveis a levar em consideração na avaliação desse encontro de Bruxelas do dia 25, e é justamente isso que vamos examinar a partir do próximo parágrafo.
Primeiro, o sucesso ou não da mesa redonda deve ser avaliado a partir dos termos de aquisição dos empréstimos e dívidas do governo junto dos seus parceiros. A delegação governamental deve contrair dívidas e empréstimos de maneira racional, o que implica a negociação antecipada das taxas de juros e períodos de reembolso dos empréstimos. Uma vez que as taxas de juros são (tendem a ser) variáveis (não fixas), isso poderá gerar – se não forem muito bem negociadas – problemas macroeconômicos a longo prazo, acarretando dívidas externas expressivas ao país. Esse elemento é fundamental, espero que o governo se atenta a esse aspecto.
Se o governo do PAIGC conseguir persuadir os seus parceiros e mobilizar os recursos – que financiarão seu programa estratégico de desenvolvimento 2015-2025 – na base dos termos razoáveis que refletem as possibilidades da Guiné-Bissau, estaremos em condição de asseverar que a reunião de Bruxelas é parcialmente um sucesso. Digo parcialmente. O pleno sucesso da reunião de Bruxelas só é possível mensurar/avaliar no terreno prático, ou seja, no âmbito de execução concreta dos projetos constituintes do programa estratégico de desenvolvimento levado à Bruxelas. A não tradução prática dos valores embolsados em capacidades e fatores reais de crescimento econômico do país, de acordo com os projetos contidos no programa de desenvolvimento do governo do PAIGC, faria da mesa redonda um fracasso e um problema para a Guiné-Bissau.
Portanto, a caracterização da mesa redonda de Bruxelas como um sucesso está condicionada à efetiva e rigorosa materialização dos projetos que forem financiados, caso contrário, será um problema de longo prazo para o país, ao invés de uma “panaceia”, constituiria um fardo financeiro à Guiné-Bissau. Dito isso, o governo da Guiné-Bissau deve empreender muito rigor no combate à corrupção (desvio dos fundos, especialmente) – redobrando os esforços no sentido de gerir o cash que for desembolsado pelos parceiros de desenvolvimento – para que seja observada a efetiva aplicação desses recursos em acções concretas de geração de riquezas. Associado a isso, o executivo terá que engajar mais na cultivação de estabilidade político-institucional e militar no país, sobretudo a estabilidade política, pois é a instabilidade política fonte da maioria de crises e conflitos recentes na Guiné-Bissau. No nosso ponto de vista, a referida estabilidade deve ser buscada, primeiramente, dentro das estruturas do próprio PAIGC, especialmente entre a sua elite política, onde pairam (notavelmente) ventos de potencial fragmentação profunda, cuja materialização transbordaria (efeito spill over) e afetaria a governabilidade e a governação do país.
Desta feita, à luz dos expostos acima, a mesa redonda de Bruxelas do dia 25 de março de 2015 é uma oportunidade real do financiamento dos projetos de desenvolvimento da Guiné-Bissau, entretanto, apresenta-se concomitantemente como um risco ao país. Este paradoxo sustenta-se devido ao elevado índice histórico de corrupção no aparelho de Estado guineense. Sem sombras de dúvida, ao governo liderado pelo Simões Pereira se apresentará um grande desafio pós-Bruxelas, maior do que a reunião de persuasão e mobilização dos recursos propriamente dita. Além de aprovação de seu programa estratégico de desenvolvimento que apresentará aos seus parceiros e seu consequente financiamento, torna-se imperiosa a necessidade do governo gerir sabia e transparentemente – o que requererá um regular exercício de accountability – os fundos que forem disponibilizados. Pois, como já sustentei, a grande parte dos recursos será (tende a ser) contraída a título de empréstimo e a Guiné-Bissau arcará com o seu reembolso no futuro.
A aprovação e financiamento do programa estratégico de desenvolvimento do governo na reunião desta semana, em Bruxelas, será apenas o cumprimento da primeira etapa do desafio. Todavia, poderá ser um passo importante que dará abertura às oportunidades (fundos disponíveis) de criação de condições para o crescimento econômico e consequente desenvolvimento do país. Entretanto, a adjetivação cabal da mesa redonda como um sucesso ou não será a médio e longo prazos, e, como já assinalei, dependerá de condições estruturais internas do país. Portanto, apesar das oportunidades serem maiores, os riscos se fazem também presentes, ainda que de modo subjacente.
Como filho da pátria de Amilcar Cabral, desejo melhor sorte ao governo.
Por: Timóteo Saba M’bunde, Mestre em Ciência Política.

Mesa Redonda para Guiné-Bissau, oportunidades e riscos para o desenvolvimento

Por, Dr. Timóteo Saba M’bunde

Nas últimas semanas, para não dizer meses, tornou-se vulgar na Guiné-Bissau, particularmente nos mais variados orgãos da comunicação social ouvir e ver notícias relacionadas ao encontro que o governo da Guiné-Bissau terá com os doadores no próximo dia 25 de março de corrente ano, em Bruxelas, capital da União Europeia. 

Aliás, nos últimos meses a chamada mesa redonda de Bruxelas tornou-se o slogan do governo do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), encabeçado pelo Domingos Simões Pereira. E não só, o eco da agendada reunião de Bruxelas podia ser ouvido também nas falas de autoridades de outros orgãos da soberania nacional. Tal fato ficou nítido durante a excursão de uma delegação de Assembleia Nacional Popular ao interior do país, representado ao mais alto nível pelo seu presidente, Cipriano Cassama. Nas suas intervenções em resposta às demandas das populações de zonas rurais visitadas, o número 1 do parlamento guineense condicionava a materialização de necessidades básicas de desenvolvimento dessas localidades ao sucesso da reunião de 25 de março. Aliás, convém salientar que a materialização do programa de desenvolvimento da Guiné-Bissau – como espelha o programa estratégico de desenvolvimento do executivo do PAIGC – está condicionada ao sucesso da reunião de Bruxelas.

Conforme o governo da Guiné-Bissau, a mesa redonda com os doadores tem por objetivo apresentar aos parceiros internacionais de desenvolvimento o seu programa estratégico de desenvolvimento dos próximos dez anos (2015-2025), e conseguir financiamento para sua execução. A fase inicial (“Terra Ranka”) estende-se de 2015 a 2020 e a segunda etapa, (“Sol na Iardi”), corresponde ao período que vai de 2021 a 2025. Os pontos de maior destaque são a infraestruturação e agroindustrialização da cadeia produtiva e econômica do país, além do desenvolvimento urbano e rural.

O governo da Guiné-Bissau espera obter junto dos seus parceiros um valor que gira em torno de US$ 2.2 mil milhões para implementar, até 2025, todos os projetos contemplados pelo programa. Em função da capacidade financeira dos atores financeiros multilaterais e bilaterais que estarão à mesa com a delegação do governo guineense (composta por 60 elementos), acreditamos que há possibilidades do governo conseguir atrair recursos, independentemente do fato do mundo, Europa em particular, estar a passar por uma de suas piores crises financeiras. O nosso otimismo baseia-se no fato de que a maior parte dos valores que serão disponibilizados para o governo da Guiné-Bissau será (tende a ser) a título de empréstimo (inclusive com juros). Teoricamente, a mesa redonda consiste em uma relação de ajuda entre doador e beneficiário, mas em termos práticos transforma-se (tende a transformar-se) em uma relação de negócios assentes nos princípios de mercado.

Denota-se que os discursos proferidos pelos governantes guineenses a propósito do encontro de 25 de março, em Bruxelas, induzem o cidadão comum a concluir que se o governo conseguir os US$ 2.2 mil milhões, logo a mesa redonda pode ser considerada um sucesso. Isso é uma grande ilusão. Há elementos imprescindíveis a levar em consideração na avaliação desse encontro de Bruxelas do dia 25, e é justamente isso que vamos examinar a partir do próximo parágrafo.

Primeiro, o sucesso ou não da mesa redonda deve ser avaliado a partir dos termos de aquisição dos empréstimos e dívidas do governo junto dos seus parceiros. A delegação governamental deve contrair dívidas e empréstimos de maneira racional, o que implica a negociação antecipada das taxas de juros e períodos de reembolso dos empréstimos. Uma vez que as taxas de juros são (tendem a ser) variáveis (não fixas), isso poderá gerar – se não forem muito bem negociadas – problemas macroeconômicos a longo prazo, acarretando dívidas externas expressivas ao país. Esse elemento é fundamental, espero que o governo se atenta a esse aspecto.

Se o governo do PAIGC conseguir persuadir os seus parceiros e mobilizar os recursos – que financiarão seu programa estratégico de desenvolvimento 2015-2025 – na base dos termos razoáveis que refletem as possibilidades da Guiné-Bissau, estaremos em condição de asseverar que a reunião de Bruxelas é parcialmente um sucesso. Digo parcialmente. O pleno sucesso da reunião de Bruxelas só é possível mensurar/avaliar no terreno prático, ou seja, no âmbito de execução concreta dos projetos constituintes do programa estratégico de desenvolvimento levado à Bruxelas. A não tradução prática dos valores embolsados em capacidades e fatores reais de crescimento econômico do país, de acordo com os projetos contidos no programa de desenvolvimento do governo do PAIGC, faria da mesa redonda um fracasso e um problema para a Guiné-Bissau.

Portanto, a caracterização da mesa redonda de Bruxelas como um sucesso está condicionada à efetiva e rigorosa materialização dos projetos que forem financiados, caso contrário, será um problema de longo prazo para o país, ao invés de uma “panaceia”, constituiria um fardo financeiro à Guiné-Bissau. Dito isso, o governo da Guiné-Bissau deve empreender muito rigor no combate à corrupção (desvio dos fundos, especialmente) – redobrando os esforços no sentido de gerir o cash que for desembolsado pelos parceiros de desenvolvimento – para que seja observada a efetiva aplicação desses recursos em acções concretas de geração de riquezas. Associado a isso, o executivo terá que engajar mais na cultivação de estabilidade político-institucional e militar no país, sobretudo a estabilidade política, pois é a instabilidade política fonte da maioria de crises e conflitos recentes na Guiné-Bissau. No nosso ponto de vista, a referida estabilidade deve ser buscada, primeiramente, dentro das estruturas do próprio PAIGC, especialmente entre a sua elite política, onde pairam (notavelmente) ventos de potencial fragmentação profunda, cuja materialização transbordaria (efeito spill over) e afetaria a governabilidade e a governação do país.

Desta feita, à luz dos expostos acima, a mesa redonda de Bruxelas do dia 25 de março de 2015 é uma oportunidade real do financiamento dos projetos de desenvolvimento da Guiné-Bissau, entretanto, apresenta-se concomitantemente como um risco ao país. Este paradoxo sustenta-se devido ao elevado índice histórico de corrupção no aparelho de Estado guineense. Sem sombras de dúvida, ao governo liderado pelo Simões Pereira se apresentará um grande desafio pós-Bruxelas, maior do que a reunião de persuasão e mobilização dos recursos propriamente dita. Além de aprovação de seu programa estratégico de desenvolvimento que apresentará aos seus parceiros e seu consequente financiamento, torna-se imperiosa a necessidade do governo gerir sabia e transparentemente – o que requererá um regular exercício de accountability – os fundos que forem disponibilizados. Pois, como já sustentei, a grande parte dos recursos será (tende a ser) contraída a título de empréstimo e a Guiné-Bissau arcará com o seu reembolso no futuro.

A aprovação e financiamento do programa estratégico de desenvolvimento do governo na reunião desta semana, em Bruxelas, será apenas o cumprimento da primeira etapa do desafio. Todavia, poderá ser um passo importante que dará abertura às oportunidades (fundos disponíveis) de criação de condições para o crescimento econômico e consequente desenvolvimento do país. Entretanto, a adjetivação cabal da mesa redonda como um sucesso ou não será a médio e longo prazos, e, como já assinalei, dependerá de condições estruturais internas do país. Portanto, apesar das oportunidades serem maiores, os riscos se fazem também presentes, ainda que de modo subjacente.

Como filho da pátria de Amílcar Cabral, desejo melhor sorte ao governo.


Nota: Os artigos assinados por amigos, colaboradores ou outros não vinculam a IBD, necessariamente, às opiniões neles expressas.

BCEAO E BANCOS COMERCIAIS ANALISAM CRÉDITO PARA CAMPANHA DE CAJÚ

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O Banco Central dos Estados da África Central (BCEAO) e os responsáveis dos bancos comerciais do país reuniram no início de manhã desta sexta-feira, 20 de Março, para analisar crédito aos empresários nacionais para a campanha de cajú de ano 2015. A situação económica e financeira do país, particularmente o financiamento da economia, a questão de bancarização e os custos dos serviços foram assunto trazidos a tona na reunião.
Durante o encontro, foi revisto ainda os principais projetos iniciados pelo Banco Central dos
Estados da África Ocidental para reforçar a estabilidade do setor financeiro bem como melhorar o sistema de informação dos bancos.
As questões relacionadas com o projeto de criação do Gabinete de Informação sobre o Crédito (Bureau d´Information sur le Crédit – BIC), a implementação dos mecanismos de financiamento sob forma de Leasing e a passagem às normas de Basileia II e III, mereceram abordagem dos participantes. Foi igualmente analisado a forma de financiamento da economia para poder conceder empréstimo aos operadores económicos e às empresas.

De acordo com João Aladje Fadia, Diretor Nacional do BCEAO, esta matéria foi “seriamente debatida durante o encontro”, na medida em que algumas empresas correm riscos de não conseguirem crédito por não terem liquidado a dívida contraída em 2012, que provocou uma baixa económica estimada em 5,8 mil milhões de Francos CFA.
João Aladje Fadia, alerta, por isso que algumas empresas podem ficar impossibilitadas de aceder a esse empréstimo para a presente campanha de comercialização de caju.
O responsável nacional do Banco Central dos Estados da África Ocidental, lembra que o financiamento da economia faz-se mediante os fundo que os bancos comerciais têm e que são utilizados no sector público e eventualmente no privado também.
O director-geral dos Bancos da África Ocidental (BAO), Rómulo Pires, revela por seu lado, que a dívida contraída pelas empresas ronda os vinte e oito mil milhões de Francos CFA.
“Não é segredo para ninguém que boa parte dos operadores da campanha de cajú tiveram grandes dificuldades em 2012, o que os levou ao incumprimento com os bancos e consequentemente impossibilitados de terem acesso a crédito para a campanha de cajú. É nesse âmbito que os bancos estão impossibilitados também de financiar esses operadores”, explica Rómulo Pires.

Entretanto, no final do encontro, os bancos reafirmaram o seu engajamento em continuar a financiar o sector privado e os particulares, mas lamentam estarem a enfrentar constrangimentos nomeadamente, “a lentidão e os disfuncionamentos do aparelho judicial” em relação à matéria.
Sobre pagamento da dívida contraída pelos operadores económicos, O Democrata sabe que o caso se encontra em andamento nos tribunais do país.

G-Bissau de todas as «mesas-redondas»


A Guiné-Bissau, querendo ultrapassar a sua situação de pobreza, tem de eleger o trabalho como o único meio de o fazer. A ajuda externa pode ser um contributo necessário, porém nunca suficiente para guindar o país do fosso sócio-económico em que se encontra.


Em vez de, primeiro, equacionar os seus problemas e procurar nos seus recursos humanos e naturais a solução da grande parte dos mesmos, está mais virada para o apoio externo, ignorando que este resulta do trabalho dos países doadores. Ou será que os governantes guineenses ainda não têm a noção exacta sobre o que tem de ser feito para diminuir a pobreza que grassa no país?

A agricultura deverá ser a principal âncora do desenvolvimento para a auto-suficiência alimentar e, por conseguinte, a indústria de transformação e, a seguir, o comércio melhor organizado e adaptado à economia nacional. Mas, para que a agricultura tenha expressão importante na economia, há que acabar com mais plantações de cajueiros, além de reduzir de forma drástica as actuais, libertando terrenos aráveis para as diversas culturas. A Guiné é um país menor que o Alentejo; portanto, não deve fazer da sua agricultura monopólio dos cajueiros, de cujo interesse para os agricultores é a simples troca de castanhas de caju com o arroz. Os recursos naturais, à mão de semear, são a agricultura, a pesca e a floresta com uma excelente qualidade de madeira. As suas explorações, de forma racional e isenta de corrupção, podem ser a solução de muitos problemas, sem necessidade de estar sempre a recorrer à ajuda externa até para tapar um simples buraco na estrada. A Guiné ganhou o vício das “mesas redondas” mas sem nunca ter apresentado resultados palpáveis delas decorrentes. Espero que, desta vez, tudo seja diferente.

A realização da “mesa redonda” sobre a Guiné em Bruxelas, no dia 25 de Março, deverá ser a última oportunidade que o país não pode desperdiçar. A Guiné não se pode queixar de falta de apoio da comunidade internacional, sobretudo de Portugal, que tem sido incansável não apenas na ajuda nas diversas áreas da cooperação como também o seu importante lobby junto das instâncias internacionais. Agora, é urgente tomar as decisões que vão ao encontro dos problemas identificados, de modo a que a Guiné possa sair da situação em que se encontra e acautelar o futuro sem grandes sobressaltos.

Há quarenta anos de independência, o país meteu-se numa encruzilhada e ainda não conseguiu encontrar o caminho de saída para a realização do sonho independentista, o qual se transformou num verdadeiro pesadelo infindável para o seu povo, devido à falta de visão da condução política certa por parte dos dirigentes. Não obstante, continua a merecer a solidariedade da comunidade internacional, sem a qual o país já teria entrado em situação de inviabilidade eterna. A gigantesca tarefa que tem pela frente, no sentido de acabar com a sua endémica crise, deve por este facto mobilizar todos os guineenses para este novo desafio até entrar nos carris da via do desenvolvimento credível.

A Guiné, depois da libertação, tem desperdiçado várias oportunidades, ao longo da sua existência histórica, que lhe podiam ter proporcionado uma situação diferente e melhor que aquela que hoje vive. Oxalá que a realização da “mesa redonda” em Bruxelas sobre o país possa, desta vez, ser bem aproveitada pelo governo e a sociedade civil empreendedora. Aliás, o desenvolvimento de qualquer país requer a participação de todos os que podem contribuir para o bem comum. Neste caso, o previsto apoio financeiro da reunião na capital belga deve também contemplar a comunidade na Diáspora, desde que alguns dos seus membros apresentem projectos de interesse social/económico no país de origem. Com efeito, o know how e a experiência adquiridos durante a estadia fora poderão garantir o sucesso dos projectos e a sua continuidade no terreno.

Pois bem, o financiamento que vier a ser concedido à Guiné como ajuda para o seu desenvolvimento e sem rigorosa fiscalização dos dadores sobre a sua correcta aplicação será a mesma coisa que confiar o ouro ao bandido.

(Pr. da Associação Guineense de Solidariedade Social)

“ESTADO É MAIOR DEVEDOR DE APGB COM MAIS DE CINCO BILHÕES DE FRANCOS CFA

  Não dá para acreditar mas leia a notícia para tirar ilações. “Estado guineense é maior devedor de APGB, com mais de cinco bilhões de fr...