POLÍTICOS "NÃO ACEITAM QUE EXISTE DE FACTO UMA CRISE" NA GUINÉ-BISSAU



Membros da delegação do Conselho de Segurança visitaram esta segunda-feira o país da África Ocidental; embaixador angolano recomenda esforço e cedências para permitir avanços.

Eleutério Guevane, da Rádio ONU em Nova Iorque.

Uma delegação do Conselho de Segurança das Nações Unidas concluiu haver necessidade de se fazer cedências para o fim do impasse político na Guiné-Bissau.

As declarações foram feitas esta segunda-feira à Rádio ONU pelo embaixador de Angola junto às Nações Unidas, no fim de uma visita de algumas horas ao país.

Impunidade

Ismael Martins assumiu a presidência do órgão em março e disse que após vários contactos foi constado que é preciso o fim da impunidade e o respeito a leis e normas por parte de partidos. O pronunciamento foi feito na capital senegalesa Dacar, antes do embarque de regresso a Nova Iorque.

“Acho que a viagem foi útil aos membros do Conselho. Conseguimos, mesmo em curto tempo, ter encontros com as entidades principais e com partidos como o Paigc, o PRS e estivemos na Assembleia Nacional com o presidente, dois vice-presidentes e com o presidente da República já no fim.”

O representante declarou que passados vários meses a população demonstra “maturidade” apesar de “estar a ficar impaciente” com a situação política.

Entendimento

“No fundo foi para que todos nos apresentassem o que veem como a principal causa desta crise, se bem que eles não aceitam que existe de facto uma crise. Nós ficamos com impressão de que sim, é possível encontrar um entendimento com maior esforço por parte todos. É um Give and take para se tentar encontrar uma forma de o país viver.”

Para o diplomata angolano, a outra prioridade é manter em território guineense a força da Ecomib, a missão da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental de manutenção da paz na Guiné-Bissau.

Martins destacou o contributo da missão regional para criar condições para a dignidade na reforma das forças de segurança e “evitar situações vividas nos outros anos”. O país tem um historial de golpes de Estado e de violência política.

O diplomata disse haver a necessidade de adaptar as tarefas do Escritório da ONU de Estabilização da Guiné-Bissau, Uniogbis, ao cenário actual. Este março, a operação iniciou um novo mandato de um ano no país.

MOÇAMBIQUE E GUINÉ-BISSAU LUTAM PELA IGUALDADE DE GÉNERO



No Dia Internacional da Mulher, recordamos os principais problemas que afectam os países africanos de língua portuguesa, como os casamentos prematuros, a mutilação genital feminina e a violência doméstica.

Celebra-se, a 8 de março, o Dia Internacional da Mulher, que relembra todos os direitos já conquistados e aqueles que ainda estão por conquistar.

Nos países africanos de língua portuguesa, apesar da luta de várias Organizações Não Governamentais (ONG), os casamentos prematuros e a violência doméstica continuam a ser problemas apontados pelos defensores dos direitos das mulheres.

De acordo com a Organização das Nações Unidas, cerca de 70% das mulheres irá sofrer algum tipo de violência ao longo da sua vida. A mais comum é praticada pelos seus parceiros, e os casamentos forçados e prematuros aumentam a vulnerabilidade da mulher.

Conceição Osório, responsável de pesquisa na Mulher e Lei na África Austral (WLSA), afirma que, em Moçambique, o caminho a percorrer ainda é longo. "Embora a Lei da Família tenha sido feita em 2004 e defina a idade mínima [para o casamento], acontece que Moçambique continua a ser o 10.º país com mais casamentos prematuros".

De acordo com dados da organização, estas práticas são mais comuns nas regiões norte e centro do país, onde os ritos de iniciação associados à puberdade perpetuam a ideia do papel tradicional da mulher na família. A sexualidade feminina é encarada não como um direito, mas como o dever de manter o marido satisfeito.

"Mal saem dos ritos, há aquelas cerimónias de integração na família e na comunidade e há muitos pais que vão de casa em casa, batendo palmas e dizendo 'Já temos mulher, já temos mulher, já temos mulher!'. Portanto, a menina depois do rito de iniciação está exposta ao casamento prematuro", explica Conceição Osório.

Na Guiné-Bissau, esta prática é impedida por lei, assim como a mutilação genital feminina, e o país é reconhecido internacionalmente como um defensor dos direitos das mulheres.

Apesar disso, Fatumata Djau Baldé, Presidente do Comité Nacional para o Abandono das Práticas Tradicionais Nefastas à Saúde da Mulher e da Criança, afirma que isto ainda acontece, mesmo que às escondidas. "Estamos a deparar-nos no nosso dia-a-dia com práticas tradicionais muito nocivas à saúde da mulher. Estamos a falar de não deixar as jovens irem à escola, estamos a falar de práticas como os casamentos infantis, como a mutilação genital feminina, a violência doméstica".

A legislação guineense proíbe os casamentos infantis, estabelecendo os 18 anos como a idade mínima para o casamento, e também os casamentos forçados, considerados como uma forma de violência doméstica. Jovens raparigas fogem destes casamentos e encontram refúgios em centros em Bissau e em Gabú, bem como junto da Igreja Evangélica e da Igreja Católica, até se conduzir o caso à justiça.

"Até aqui, pelos poucos casos que chegam e que são levados à justiça, a justiça tem estado a fazer o seu trabalho. Chamam os familiares e explicam-lhes que não podem forçar as crianças a esses casamentos", afirma a responsável do Comité. "Quando as famílias não aceitam, são conduzidas à justiça e julgadas por essa situação".

Violência doméstica preocupa organizações

A violência doméstica é uma das problemáticas que ainda afecta os países africanos de língua portuguesa. Na Guiné-Bissau, o número de denúncias tem vindo a aumentar e as ONG garantem o apoio às vítimas, mas ainda faltam centros de acolhimento ou passagem que as protejam, impedindo-as de sair de casa dos agressores.

"As mulheres que são violentadas pela família, quando recorrem às ONG ou à polícia, mesmo que não queiram voltar para a família que as violentou, não têm um sítio para ficar até se resolver a questão", afirma Fatumata Baldé.

No entanto, admite que se estão a registar cada vez mais denúncias de violência doméstica. "Parece que a situação de violência está a aumentar no país, mas não é o caso. O que está a acontecer é que, hoje em dia, as mulheres estão a ganhar mais consciência de que não devem aceitar viver naquela situação".

Em Moçambique, estima-se que os casos de violência doméstica cheguem aos 23 mil, mas este número é drasticamente reduzido quando se fala de denúncias efectivas.

"O problema dos dados é que nós não temos uma ficha única que permita registar a mulher que entra no Centro de Saúde, que vai depois para a polícia, e é obrigatório seguir para tribunal porque a violência doméstica é crime público", explica Conceição Osório. "Quando chegamos ao fim da linha, aos tribunais, esses 23 mil casos reduzem-se para aí a 400 ou 300", uma vez que, muitas vezes, a polícia não regista estes casos como violência doméstica, mas sim violência física.

Continua a luta contra a mutilação genital feminina
A mutilação genital feminina é ilegal na Guiné-Bissau desde 2011

Mas não é apenas a violência doméstica que preocupa estas organizações. Práticas como a mutilação genital feminina ainda são comuns, especialmente na Guiné-Bissau, apesar das leis que a proíbem.

Impedir a mutilação genital feminina foi "uma luta difícil e continua a ser uma luta difícil", afirma Fatumata Baldé, que diz que ainda é possível depararmo-nos com "pessoas que estão a levar a cabo esta prática e que a estão a fazer à maneira deles".

A luta está a ser vencida a cada dia mas, de acordo com a responsável do Comité Contra as Práticas Nefastas "é difícil combater práticas seculares. É preciso continuar a trabalhar para a mudança de comportamentos e de hábitos que são tidos como parte da identidade destas comunidades".

A educação é um dos passos mais importantes no combate a estas práticas, uma vez que é através dela que é possível explicar a estas comunidades que os direitos sexuais, reprodutivos, humanos e físicos de cada pessoa devem estar em primeiro lugar, independentemente da sua religião ou etnia.

Para Fatumata Baldé, a pouco e pouco chega-se ao objectivo final de erradicar esta prática. "Já não se vê ninguém a fazer esta prática publicamente como se fazia dantes. Quem o faz ainda hoje, fá-lo às escondidas. E eu costumo dizer que quem faz uma coisa às escondidas sabe que o que está a fazer não é correto".

Educação é um passo importante no combate a estes problemas

Nestes países, a educação ainda é, muitas vezes, negada às jovens raparigas e muitas delas abandonam a escola precocemente, como é o caso de Moçambique, onde a maioria das meninas abandona a escola quando chega à 6.ª classe, que é quando o ensino deixa de ser gratuito e as escolas ficam deslocadas das povoações mais pequenas.

Em Moçambique e na Guiné-Bissau a taxa de abandono escolar das meninas ainda é muito elevada

Os casamentos infantis também aumentam o abandono escolar, mas muitas raparigas já começam a fugir destes casamentos e procuram ajuda junto destas organizações. "Quando nós lhes perguntamos porque é que elas fugiram ao casamento, elas respondem-nos que querem continuar a estudar, que querem ser isto ou aquilo", afirma Conceição Osório.

Na Guiné-Bissau, o tratamento entre rapazes e raparigas no que diz respeito à escolaridade e alfabetização ainda é diferenciado, limitando a capacidade da mulher em ser independente do marido ou dos pais. "O facto de as meninas não terem acesso à escola, isso impede-as de tudo. Impede-a de ter um trabalho remunerado, que lhe poderá dar um rendimento que a torne independente. Ela será obrigada a viver aquela vida mais dura”, afirma Fatumata Baldé.

Para a Presidente do Comité contra as Práticas Tradicionais Nefastas, a educação é uma das principais formas de combater estas práticas, e apela à comunidade nacional e internacional que apoie o país a alargar os seus apoios ao sector da educação, para fazer chegar as escolas a todos os cantos do país. "Tudo isso que nós estamos a falar poderá ser ultrapassado se a mulher for escolarizada. Quem educa uma mulher está a educar uma comunidade, está a educar toda uma geração futura”.

dw.com/Conosaba/MO

"O FUTURO DA CPLP EM DEBATE"




Terá lugar no dia 12 de março, pelas 16 horas, o debate sobre “O Futuro da CPLP”, num evento promovido pela Conexão Lusófona e Fundação Portugal - África e que conta com o apoio da UCCLA.

A Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) completará 20 anos de existência, no próximo mês de julho. No mesmo mês, ocorrerá a XI Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da CPLP, que pretende afirmar uma nova fase na vida desta organização internacional. Assim, este evento, aberto entre oradores e público, pretende reunir contributos de diversas organizações da sociedade civil, empresas, associações, instituições académicas, a serem posteriormente encaminhados à próxima Cimeira de Chefes de Estado e de Governo.

O encontro, que conta com a parceria da ONGD Mundo a Sorrir e do MBA Atlântico, terá a presença do Secretário Executivo da CPLP, Isaac Murade Murargy, do Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Augusto Santos Silva, do presidente da Confederação Empresarial da CPLP, Salimo Abdula, e do Secretário-geral da UCCLA, Vítor Ramalho.

Muitas serão certamente as questões que se poderão traduzir não só em reflexões de fundo sobre o futuro de uma lusofonia global, já em plena construção, mas também sobre o futuro de uma organização internacional que representa e procura operacionalizar diariamente o projecto lusófono.

O debate decorrerá na Fundação Portugal - África (Rua de Serralves, n.º 191 - próximo do Hotel HF Ipanema Park), Porto, e tem entrada livre mas sujeita a inscrição prévia através do emailgeral@conexaolusofona.org

SOCIEDADE CIVIL PEDE À ONU PARA GOVERNAR A GUINÉ-BISSAU



O Conselho de Segurança da ONU esteve esta segunda-feira (07.03.) na Guiné-Bissau, onde reuniu com os principais parceiros internacionais, a sociedade civil e com os partidos políticos, nomeadamente o PAIGC e o PRS.

A Missão do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) esteve na Guiné-Bissau na tentativa de resolver o impasse político que se vive no país. Durante a curta visita foram mantidos vários encontros com o intuito de tentar mediar a crise guineense.

No balanço final da missão que durou pouco mais de quatro horas, o chefe da delegação, o angolano Ismael Martins, disse que foi a Bissau para pedir às autoridades do país que deixem as instituições funcionarem normalmente e que as leis sejam aplicadas. "Eu penso que agora vamos deixar as instituições funcionar. Os partidos têm de funcionar. Onde houver incumprimento das regras dos partidos, é preciso que eles saibam aplicar aquilo que são as suas próprias normas, para que sejam legitimados e o Parlamento a mesma coisa. As regras têm de ser cumpridas, são regras básicas", afirmou Ismael Martins.

A missão reuniu-se com o Presidente da República, José Mário Vaz, o chefe do Governo, Carlos Correia, com a mesa da Assembleia Nacional Popular e com os dois principais partidos políticos no parlamento: o PAIGC e o PRS.

Ismael Martins vê maturidade política nas acções dos políticos guineenses e acredita que com um pouco de paciência o problema poderá ser resolvido: "Ninguém está acima da lei e penso que com estas palavras todas, saímos com a sensação de que com mais paciência, com mais procura e abertura, encontraremos uma saída", salientou.

O diplomata angolano disse que a comunidade internacional está apressada em ver a Guiné-Bissau ultrapassar a crise para poder beneficiar dos contributos dos parceiros. Ismael Martins deixou claro que o Conselho de Segurança não propôs nenhuma solução para a saída da crise. "Nós não impusemos nada a ninguém. Nós queremos regras, queremos cumprimento da lei e justamente o combate ao incumprimento da lei e das normas. Só se vê investir em países onde há normas e onde há regras", garantiu.

"Exigimos que a Guiné-Bissau passe a ser administrada pela ONU"

O movimento Cidadãos de Mundo, liderado pelo jornalista da televisão pública Tony Goia, aproveitou a ocasião para entregar uma petição onde solicita que as Nações Unidas venham a assumir a administração da Guiné-Bissau para evitar as crónicas instabilidades políticas do país: "Entregámos a nossa petição e exigimos que a Guiné-Bissau passe a ser administrada pela ONU, uma vez que os políticos deste país já mostraram que não têm capacidade de o desenvolver e tirá-lo desta miséria".

O jornalista acrescenta ainda que " o problema da Guiné-Bissau é uma crise de liderança. Faz-se mil eleições e a crise mantém-se. Os políticos da Guiné-Bissau não pensam no povo, mas sim nos seus interesses. Vê-se a ostentação que fazem a olho nu, mas o povo vive na miséria. Queremos que a ONU administre o país".

Para o primeiro-ministro, Carlos Correia, não existe crise política na Guiné-Bissau, alegando que as instituições da República estão em pleno funcionamente e acrescenta que a crise foi fabricada. "Disse aos membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas que a crise propriamente dita não existe. E que foi inventada. Só pode ser arbitrada a nível das instituições competentes e não através de diálogo com grupinhos", garantiu.

Entretanto, na próxima quarta-feira, dia 9 de março, chega à Guiné-Bissau uma delegação do Conselho de Paz e Segurança da União Africana.

dw.com/pt/Conosaba/MO




“ESTADO É MAIOR DEVEDOR DE APGB COM MAIS DE CINCO BILHÕES DE FRANCOS CFA

  Não dá para acreditar mas leia a notícia para tirar ilações. “Estado guineense é maior devedor de APGB, com mais de cinco bilhões de fr...